Como devo limpar os ouvidos?

Esta é, de facto, uma das perguntas mais frequentes na prática clínica de um otorrinolaringologista. Certamente a maioria das pessoas já ouviu o ditado popular: “os olhos e os ouvidos limpam-se com os cotovelos”. Mas o que quer isto dizer? Será necessária uma limpeza regular dos nossos ouvidos? Antes de mais é importante saber que a cera (ou cerúmen) é uma substância naturalmente produzida pelo corpo humano e que tem a função de limpar, proteger e lubrificar os nossos ouvidos. Ver na figura a localização da cera no canal auditivo (adaptado de Schwartz SR, Magit AE, Rosenfeld RM, et al. Clinical practice guideline (update): earwax (cerumen impaction). Otolaryngol Head Neck Surg. 2017).

A cera resulta da mistura da descamação da pele do canal auditivo externo e da produção de glândulas especializadas que existem nesse canal, atuando como um agente de autolimpeza e mantendo os nossos ouvidos saudáveis. Por um lado, o cerúmen permite que partículas de pó, ou outras, com origem no exterior fiquem presas e evita que penetrem mais profundamente no ouvido. Além disso, assegura um pH ácido no canal auditivo que é desfavorável ao crescimento de microrganismos nesta zona, minimizando o risco de desenvolvimento de infeções. Por outro lado, através da mastigação, movimentos da mandíbula e crescimento da pele no canal auditivo ocorre a mobilização da cera “mais antiga” em direção da abertura do canal auditivo, onde ela se desprende ou é lavada quando tomamos banho. Esse processo normal de produzir cera e empurrá-la para fora do ouvido é contínuo e assegura a limpeza do canal auditivo. Assim compreendemos que a presença de cera não é sinal de má higiene ou sujidade do ouvido.

Em algumas situações este processo de autolimpeza pode não ocorrer de forma eficaz e levar à acumulação em excesso de cera no canal auditivo, bloqueando-o total ou parcialmente. Esta impactação de cera (mesmo que não seja completa) pode causar sintomas como perda auditiva (hipoacusia), zumbido (acufeno), comichão (prurido) ou dor no ouvido (otalgia), entre outros. Na presença destes sintomas é muito importante a avaliação por um otorrinolaringologista para confirmar que são causados pela cera. Existem outras doenças do ouvido que se podem manifestar de forma muito semelhante.


Por outro lado, a presença de cerúmen em excesso também pode dificultar a observação dos ouvidos por parte do médico (otorrinolaringologista, médico de família, pediatra, etc.) e assim dificultar o diagnóstico de doenças do ouvido, como por exemplo, uma otite média aguda.

A cera é um produto natural do nosso organismo que funciona como agente protetor dos nossos ouvidos mas que, em situações específicas, pode acumular-se em demasia e gerar sintomas ou impedir o diagnóstico de patologias do ouvido. É apenas nestas situações que está indicada a sua remoção. A forma mais rápida e segura de o fazer será com o seu otorrinolaringologista: após o correto diagnóstico, a remoção da cera pode ser feita imediatamente na consulta (normalmente com recurso a aspiração sob observação direta).

O uso de cotonetes ou outros instrumentos para remoção da cera é fortemente desaconselhado pelo facto de, na maioria das vezes, ocorrer apenas remoção de parte da cera sendo o restante empurrado mais profundamente (agravando os sintomas). Além disso, podem ocorrer lesões de estruturas do ouvido, tais como a pele do canal auditivo ou até da membrana timpânica. A introdução destes instrumentos pode também causar irritação da pele do canal auditivo, aumentando o risco de infeções.


O uso de gotas que ajudam na limpeza do cerúmen está indicado em algumas situações, mas deverá
acontecer sempre após uma avaliação prévia pelo seu otorrinolaringologista que irá, primeiro,
estabelecer o diagnóstico correto e, de seguida, aconselhar sobre como utilizar destes produtos em
segurança.

Assim, podemos concluir que a cera dos ouvidos não necessita de ser limpa diariamente. Caso surjam
sintomas suspeitos deve ser sempre avaliado primeiro pelo seu otorrinolaringologista que o
orientará da forma mais eficaz e segura.

Artigo publicado por:

Especialista de Otorrinolaringologia e Cirurgia da Cabeça e Pescoço
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